Como correspondente autorizado da ONU, meu compromisso com a informação exige uma visão multidimensional. No jornalismo de profundidade, não podemos nos dar ao luxo de olhar apenas para a “grama do vizinho” — ou seja, limitar o debate às querelas domésticas de gestões como as de algumas capitais no Brasil. É preciso observar o tabuleiro global para entender como o Brasil está se movendo, ou melhor, onde ele está travado.
Banco Mundial/Mariana Ceratti Porto de Pecém, no Ceará: polo pioneiro para produção de hidrogênio verde
O Diagnóstico Técnico e Global
O mais recenteestudo do Banco Mundial sobre o território brasileiro é um documento de urgência máxima. O relatório aponta que a região Nordeste, que serve de termômetro para os desafios estruturais do país, possui 80% de sua população em idade economicamente ativa. Temos um contingente de 54 milhões de habitantes que representa um dos motores mais dinâmicos do país, mas que permanece subutilizado por falhas sistêmicas.
Os dados são implacáveis:
A região necessita de US$ 102 bilhões em investimentos em infraestrutura até 2030 para atingir metas básicas de desenvolvimento.
O ambiente de negócios é asfixiado pela burocracia: abrir uma empresa leva, em média, 15 dias, evidenciando um atraso administrativo que afasta o capital.
A produtividade urbana em manufatura e serviços está estagnada, enquanto a informalidade e o desemprego superam as médias nacionais.
A Síndrome do “Carteiro Novo”
É aqui que o relato técnico encontra a triste realidade da nossa governança. Ao analisar esses números, percebo a recorrência de uma patologia política que batizei de Síndrome do Carteiro Novo.
O gestor atual se comporta como aquele carteiro recém-contratado que, cheio de energia e ansioso por visibilidade, corre as ruas o dia inteiro, gasta sola de sapato e faz um barulho ensurdecedor. No entanto, por falta de método, preparo e foco, ele se atropela no itinerário: passa pela casa onde deveria entregar a correspondência e não a vê, entra em ruas sem saída e, ao fim da jornada, sua bolsa continua cheia. Ele andou muito, mas não entregou nada.
Na política, isso se traduz na gestão do like. Vemos prefeitos e governadores transformados em apresentadores de auditório e influenciadores digitais. Eles entregam “coisinhas” — remendos festivos, pinturas de meio-fio e pequenas intervenções cosméticas — e as embalam com megaproduções audiovisuais. É o esforço do “carteiro” focado na selfie, enquanto a “carta” (a infraestrutura de bilhões, a reforma do ambiente de negócios e o emprego qualificado) nunca chega ao destino.
A Crítica à Gestão Multifacetada
Essa postura multifacetada, onde o gestor é ator, locutor e repórter de si mesmo, é uma doença que assola o território brasileiro, com especial gravidade nos eixos Sudeste e Nordeste. O ciclo virtuoso da governança foi substituído por um narcisismo utilitário.
Enquanto o Banco Mundial fala em aproveitar tecnologias emergentes como o Hidrogênio Verde, nossos gestores estão ocupados editando o próximo vídeo para o Reels. A agenda internacional de desenvolvimento exige ativos reais e segurança jurídica, não filtros de Instagram.
A conclusão é amarga: o desenvolvimento real não acontece por osmose ou por propaganda. Ele exige a coragem de ser menos “influenciador” e mais estadista. O Brasil não precisa de políticos que apenas “andem” pela cidade; precisamos de gestores que parem de se atropelar e finalmente entreguem as reformas e as obras que o século XXI exige.