O mundo vive um daqueles momentos em que o tabuleiro é virado e as peças se reposicionam. Eu não vejo nisso uma ameaça. Vejo uma oportunidade rara, e acredito que o Brasil precisa entender o tamanho dela antes que a janela se feche.
Os números ajudam a dimensionar a mudança. Segundo dados do FMI, o BRICS ampliado já responde por cerca de 40% da economia mundial, medida em paridade do poder de compra. Isso abre espaço para um mundo mais plural, com mais vozes nas instituições financeiras e comerciais. Não é um deslocamento simples do Ocidente para o Oriente, e eu faço questão de dizer isso. Mas é uma mudança real, e quem se posicionar bem agora vai colher os frutos por décadas.
Sem ilusões sobre o BRICS
Sou a favor do BRICS, e justamente por isso quero falar dele sem fantasia. O grupo reúne rivais históricos, como China e Índia, e países com interesses energéticos e políticos muito diferentes entre si. Não tem moeda comum, nem política externa unificada.
A desdolarização, por enquanto, é um debate, não uma realidade. O próprio FMI mostra que o dólar ainda responde por cerca de 57% das reservas cambiais do planeta, e o yuan não chega a 2%. Quem fala em fim do dólar faz discurso. O que existe é diversificação gradual, e é nessa brecha, de um sistema que se abre aos poucos, que o Brasil pode ocupar espaço.
Nosso trunfo é estrutural, e o presidente soube dar voz a ele
Eu acredito que o Brasil ocupa um lugar único no mundo. Temos tamanho, terra, minério, energia e alimento. Temos a tradição do Itamaraty, não temos alinhamento militar e sentamos ao mesmo tempo no G20, no BRICS e no Mercosul, com portas abertas em Washington e Bruxelas. Sediamos o G20 e a COP30. Isso é patrimônio do país, maior do que qualquer governo.
Dito isso, reconheço o papel do presidente Lula. Ele deu rosto e voz a essa posição, e poucos líderes hoje conseguem conversar com todos os lados sem fechar portas. Essa interlocução é um ativo, e quem a menospreza não entende como o mundo funciona.
A Ucrânia mostrou o desafio, não a derrota
Eu não escondo os limites. A proposta de paz que o Brasil apresentou com a China foi recebida com dureza por Kiev, e o presidente Zelensky chegou a chamá-la de destrutiva em entrevista ao canal Metrópoles, em 2024.
Mas leio esse episódio como aprendizado. Ele mostra que prestígio diplomático ainda não vira resultado automaticamente. O caminho não é recuar, é amadurecer: construir credibilidade, preparar propostas com mais consulta e seguir oferecendo canais de diálogo, que é o que poucos países têm condições de oferecer.
A China é a nossa maior janela, e o nosso maior desafio
A China é, desde 2009, o principal destino das exportações brasileiras. Em 2025, o comércio entre os dois países bateu o recorde de 171 bilhões de dólares, segundo o Conselho Empresarial Brasil-China, com cerca de 100 bilhões em vendas brasileiras. É mercado, é emprego, é renda no campo e na indústria extrativa.
Eu quero olhar isso de frente, porque aí está a oportunidade de verdade. O Banco Central mostra que cinco produtos respondem por 90% do que vendemos à China: soja, petróleo, minério de ferro, carne e celulose. Um país do nosso tamanho não pode se contentar em ser o celeiro e a mina do mundo. O passo à frente é usar a força desse comércio para negociar investimento produtivo, tecnologia, agregação de valor e indústria. Esse é o salto de quem deixa de ser fornecedor para virar parceiro.
Autonomia tem preço, e vale pagar
Ficar em cima do muro? Não. Preservar autonomia é diferente de ficar em cima do muro. Escolher o Brasil como prioridade é escolher o interesse nacional, e isso incomoda. Hoje, cerca de 22% das exportações brasileiras para os Estados Unidos continuam sujeitas às sobretaxas impostas em 2025. Isso mostra que a postura independente cobra um custo.
Mesmo assim, defendo que vale a pena. Um país que só se alinha vira coadjuvante. Um país que negocia com todos, e sabe o que quer de cada um, vira protagonista.
O momento é agora
O xadrez mundial está em movimento, e eu acredito que o Brasil tem peças valiosas na mão. Para dar o passo à frente, precisamos de três coisas: definir com clareza o que queremos de cada parceiro, diversificar a economia e transformar a nossa posição de intermediário em poder de negociação, com acesso a mercados, tecnologia, investimento e voz nas reformas das instituições globais. E precisamos de uma política de Estado que sobreviva às eleições.
Se fizermos isso, o Brasil não será apenas convidado para as grandes mesas. Será um dos que decidem o que se discute nelas. A oportunidade está dada. Cabe a nós aproveitá-la.
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Jornalista Lauro Nunes | MTb Nº 0004566/ES - Brasil
Jornalista Internacional Volunteering United Nations and partners UNV - 6375849
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